Sem título. Sem certeza. Sem decisão.

Hoje em dia, os jovens mais legais que eu conheço são confusos. Não sei bem do quanto a estatística do meu circulo é valida ou se meu conceito de legal está próximo do que o mundo considera “legal”.

Só sei que é no sentido desse legal que eu quero ficar, hoje. A discussão da legalidade de um artigo de uma lei inútil nas horas aulas de uma faculdade com tanto potencial mas reduzida às marcas do tempo eu quero estar longe.

Sinto que nossa geração esta querendo voar mais alto em tempos nos quais a facilidade de acesso à informações nos mostra o quanto o planeta esta doente. Acho que me enquadro nessa parcela utópica de 90ventianos que sonha em transformar o que nos indigna, e se indignar com o que por décadas não se transforma. É fácil cair na correnteza e ser levado por um modo mais confortável de encarar a vida. Mas parece que meu barco foi mais forte e levantei minhas bandeiras.

E prometo escrever sobre nossas tempestades aqui.

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Sem título. Sem certeza. Sem decisão.

Medo, mar, nadar, afundar

 

Depois que a gente cresce, a gente se dá conta de como fomos ingênuos em ter pressa de crescer antes. Tenho quase certeza que, quando criança, me perguntaram mais vezes “o que você quer ser quando crescer?” do que “o que te faz feliz agora?”. Talvez se eu tivesse parado para pensar em o que me fazia feliz eu teria parado de me preocupar com o futuro, e continuar fazendo isso até hoje.

Essa semana saí pra sentar na mesa de bar com várias pessoas que não conversava há tempos. Quando foi que a minha prioridade não foi mais fazer isso toda semana? Quando foi que eu me prendi na rotina? Quando foi que a gente ficou tão complexo e cada copo de cerveja era uma enxurrada de histórias que não compartilhamos um com o outro quando estava estourando?

Na segunda, minha amiga que ficou mais de um ano em um relacionamento abusivo, se diz tão livre agora, mas não consegue ficar uma semana sem um vínculo amoroso, sem ficar leve só consigo mesma. A gente não é completo desde sempre? E se faltar a gente se completa? Amor é tão mais que sair pra jantar ou ter assunto o tempo todo, é crescer a cada segundo compreendendo o que tá lá dentro do outro, e ficar feliz em fazer parte de uma construção mútua, porque amor não tem nada de pronto..

“Ah, e o trabalho, como vai?” (pergunta do paulistano médio)

O trabalho é sempre um peso, uma farda, que só compensa se ganha bem o suficiente para sustentar um padrão de vida médio/alto em São Paulo. Mas eu liguei para Paraíba essa semana, e eles trabalham tão menos, talvez ganhem menos, mas são tão mais tranquilos (me senti mal depois em exigir as coisas na hora, com esse ar de rapidez e um obrigada só de tabela), a realidade é que devíamos admirar quem sabe que trabalho é só uma parte da nossa vida. Não precisa trabalhar 12h por dia, não precisa mesmo, não existe função que exija isso. É tudo questão de escolha e prioridades, temos todo tempo do mundo no final das contas.

Mas quando a conta não bate, a economia cara obriga uma outra amiga minha, que encontrei na quarta, que sonhava em querer fazer audiovisual e produzir filmes, a querer muito trabalhar em um banco pra ganhar dinheiro. Ela quer o dinheiro pra viajar, eu quero viajar também, mas sei lá, vale a pena?

Eu percebi claramente que o mais feliz da mesa era meu amigo que faz teatro. Ele foi expulso de casa quando assumiu que era gay. Bateu de frente. E olha.. é uma das pessoas mais honestas que eu conheço.

Aqui dentro é tão confuso decidir o que é sonho, o que é prioridade, o que é possível, o que é futuro, o que é útil. O que eu tô fazendo aqui? Tenho tantas coisas a meu favor, mas o que eu tô fazendo aqui? É como se vira e mexe tudo que eu faço perdesse o sentido e ficasse tão vazio. Quanto, quem, onde, vale meu tempo?

Era tão mais fácil quando eu achava que a vida tinha que estar montada e meus objetivos só iriam vir, assim, nessa ordem: se formar na escola, passar no vestibular, se graduar, carteirinha da OAB, ser efetivada, casar, filhos, Disney em julho e praia em dezembro. Não esquecer de gastar 300 reais no conjunto da Barbie, mais 400 na coleção completa da Hot Wheels pra dar de presente de natal para os pequenos, e descobrir que a maioria das pessoas se casam pra obedecer tudo isso e não se amam.

A realidade é que de repente estamos presos em uma rotina, e supostamente ancorados em responsabilidades que no final das contas não são nem um pouco pesadas. Ninguém é obrigado a estacionar em lugar algum. Mas os anos passam e continuamos no mesmo lugar, achando que só aquilo é possível, que não existem opções. Mas o mar é enorme, tão tão enorme. Eu ainda preciso descobrir.

Medo, mar, nadar, afundar

Algum dia do começo de abril

Chegou achando que era um encontro de amigos e terminou como encontro a dois. Em uma terça feira. Aliás, era terça feira? Só sei que era um dia bem aleatório, no começo de abril.
Meus amigos achavam que era de longa data e que você estava ali por (pra) mim. Talvez estaria, ou talvez eu que esperava que estivesse, apesar dos passinhos para trás toda vez que você se aproximava.

Já fazia algumas semanas que tinha alguma coisa que eu ainda não conseguia perceber, ou que só evitava perceber mesmo, como quem não quer nada. Isso até o fatídico:

– vamos fumar um cigarro no meu carro?
(Não fumo não, foi ele)

E as coisas se atropelaram de um jeito tão rápido quando aqueles tragos. Sinceramente, nem lembro dele efetivamente fumando no carro, não foi a lembrança que ficou daquele começo de abril, exatamente um ano atrás.

Algum dia do começo de abril

O gato preto!

Me olhou nos olhos. Me fez lembrar de todos os meus piores medos. Como se aqueles olhos enxergassem uma parte da minha alma, não a parte boa dela.

Grandes olhos verdes me encarando, como uma lembrança das minhas inseguranças.

Meu lado mais humano exposto. Aquele que eu não entrego para ninguém, que não mostro, sufoco, escondo, tranco com quantos cadeados achar no caminho.

Maldito gato. Olha com seriedade. Animal que me faz lembrar do meu lado mais animal. Como se para lembrar que aqui, você e humano. Seu lado humano mais animal. Seu animal humano.

Consigo escutar seus pensamentos. E ele RI, RI ALTO, gargalha. Filha da puta. Um dia acabo com você.

Meu querido gato preto.

O gato preto!

Frustantes

Sabe aqueles dias, que você acorda e tá tudo tão bonito? Quando o despertador não afeta, o chão não pesa e o sol gostoso nas bochechas faz com que levantar da cama não seja uma batalha?

Acontece que, de repente, chove. Dá errado. Tropeça. Bate o dedinho do pé na quina da cama e derruba café no edredon (vai ficar manchado para sempre, provavelmente).

Todo mundo sabe que coisas ruins acontecem, todo mundo se esforça para tentar convencer nossa cabeça sonhante de que não será tudo perfeitamente do jeitinho que imaginamos.

Mas então onde podemos enfiar nossa autoestima nessas horas? O que fazemos com esse sentimento de derrota, de quando o mundo parece gritar que está tudo errado e a culpa é exclusivamente nossa?

A frustração é como a chuva, a gente se encolhe quando vem mas sabe que precisa dela para viver. Chuva tem raio e barulho forte, e pode ser que algumas árvores caiam no meio da estrada. Mas, tem sempre a opção de aproveitar toda essa água para dançar sem se preocupar. A frustação é assim também, vai molhar, mas vai fazer bem e a gente cresce. E sabe que vai chover de novo, sempre chove.

Somos seres extremamente perdidos, deslocados, desajustados, procurando um espaço para se encaixar nesse mundo sacana, competitivo e desleal. Quase uma selva, só que envolve dinheiro e sabemos fazer contas.

E é assim que é. Vamos nos frustando e seguindo. Chove de novo, alaga a rua e o coração, mas passa e guardamos o guarda-chuva para usar de novo mais tarde. Frustações e superações, ad eternum.

Dessa forma, aprendemos e nos ajustamos, aprendemos a conviver com o clima.

Acontece que ajuste, conformismo e sinônimos não fazem parte do meu vocabulário. Pareço tão desajustado. Sigo assim, porém, feliz. Feliz por nadar na direção contrária, jogar o guarda-chuva fora e enfrentar a tempestade de um jeito totalmente difernete do que manda o protocolo. Tão feliz por buscar outros caminhos e nadar na direção oposta da correnteza. Tão feliz também por olhar para o lado e ver mais gente comigo. Nós, pessoas frustradas, revoltadas, e donas de nossos próprios caminhos e escolhas, somos também donas de uma ilha no meio do oceano que é esse mundão, onde ser livre pode. Pode ser feliz e frustrado, pode dançar na chuva também.

Hoje tenho coragem para mudar, para arriscar e jogar tudo para o alto. Porque hoje, se der tudo errado, é porque está dando certo. Significa que tentei, chorei, sorri e rasguei todos os manuais.

Vai chover de novo, mas estarei feliz por continuar tentando achar meu ritmo para dançar na tempestade de frustações.

Desconfortável, ensopado, eu sigo tentando.

Obrigado por dar tudo errado. Do jeito que para mim é certo.

Frustantes