Frustantes

Sabe aqueles dias, que você acorda e tá tudo tão bonito? Quando o despertador não afeta, o chão não pesa e o sol gostoso nas bochechas faz com que levantar da cama não seja uma batalha?

Acontece que, de repente, chove. Dá errado. Tropeça. Bate o dedinho do pé na quina da cama e derruba café no edredon (vai ficar manchado para sempre, provavelmente).

Todo mundo sabe que coisas ruins acontecem, todo mundo se esforça para tentar convencer nossa cabeça sonhante de que não será tudo perfeitamente do jeitinho que imaginamos.

Mas então onde podemos enfiar nossa autoestima nessas horas? O que fazemos com esse sentimento de derrota, de quando o mundo parece gritar que está tudo errado e a culpa é exclusivamente nossa?

A frustração é como a chuva, a gente se encolhe quando vem mas sabe que precisa dela para viver. Chuva tem raio e barulho forte, e pode ser que algumas árvores caiam no meio da estrada. Mas, tem sempre a opção de aproveitar toda essa água para dançar sem se preocupar. A frustação é assim também, vai molhar, mas vai fazer bem e a gente cresce. E sabe que vai chover de novo, sempre chove.

Somos seres extremamente perdidos, deslocados, desajustados, procurando um espaço para se encaixar nesse mundo sacana, competitivo e desleal. Quase uma selva, só que envolve dinheiro e sabemos fazer contas.

E é assim que é. Vamos nos frustando e seguindo. Chove de novo, alaga a rua e o coração, mas passa e guardamos o guarda-chuva para usar de novo mais tarde. Frustações e superações, ad eternum.

Dessa forma, aprendemos e nos ajustamos, aprendemos a conviver com o clima.

Acontece que ajuste, conformismo e sinônimos não fazem parte do meu vocabulário. Pareço tão desajustado. Sigo assim, porém, feliz. Feliz por nadar na direção contrária, jogar o guarda-chuva fora e enfrentar a tempestade de um jeito totalmente difernete do que manda o protocolo. Tão feliz por buscar outros caminhos e nadar na direção oposta da correnteza. Tão feliz também por olhar para o lado e ver mais gente comigo. Nós, pessoas frustradas, revoltadas, e donas de nossos próprios caminhos e escolhas, somos também donas de uma ilha no meio do oceano que é esse mundão, onde ser livre pode. Pode ser feliz e frustrado, pode dançar na chuva também.

Hoje tenho coragem para mudar, para arriscar e jogar tudo para o alto. Porque hoje, se der tudo errado, é porque está dando certo. Significa que tentei, chorei, sorri e rasguei todos os manuais.

Vai chover de novo, mas estarei feliz por continuar tentando achar meu ritmo para dançar na tempestade de frustações.

Desconfortável, ensopado, eu sigo tentando.

Obrigado por dar tudo errado. Do jeito que para mim é certo.

Frustantes